Um apartamento por R$ 28 milhões, erguido a menos de um quilômetro de um shopping center. Esse é o produto mais recente de uma tendência que vem se espalhando pelo Brasil: grandes redes de shopping centers investindo em imóveis encostados nos próprios empreendimentos, apostando que a proximidade com lojas, restaurantes e serviços valoriza cada metro quadrado ao redor.
De Porto Alegre a São Paulo, passando por Brasília, Recife, Rio de Janeiro e Maceió, administradoras de shopping e incorporadoras parceiras lançam torres residenciais de altíssimo padrão e complexos empresariais colados aos malls. Em João Pessoa, a lógica já aparece na atual expansão do Manaíra Shopping, que vai ganhar quatro andares inteiros de salas comerciais para locação.
O apartamento mais caro de Porto Alegre nasceu ao lado de um shopping
O Golden Lake, bairro privativo de luxo erguido pela Multiplan em Porto Alegre, é o exemplo mais recente e mais caro dessa estratégia. O projeto reúne três complexos residenciais, entre entregues, em obras e recém lançados, com previsão de somar 20 torres, 1.400 unidades e 250 mil m² de área privativa quando concluído, num Valor Geral de Vendas estimado em R$ 5,2 bilhões. O empreendimento fica a menos de um quilômetro do Barra Shopping Sul, também da Multiplan, e já rendeu o apartamento mais caro anunciado no projeto, avaliado em R$ 28 milhões. O preço médio do metro quadrado no Golden Lake saiu de R$ 13 mil e hoje passa de R$ 20 mil.
“É um consumidor que gasta 16 vezes mais que o consumidor comum”, resume Hans Christian Melchers, diretor executivo da Multiplan, sobre o morador que a empresa pretende atrair para perto de seus shoppings.
Armando d’Almeida, CFO da companhia, explica que o modelo já foi testado em outras praças do país.
“Há alguns exemplos que nós fizemos: os cinco prédios ao lado do shopping em Ribeirão Preto. O que era uma fazenda de cana-de-açúcar se tornou uma verdadeira cidade”, afirma.
A Multiplan replica a fórmula em Curitiba, Belo Horizonte e outras capitais.
Shoppings investindo em imóveis: o modelo se repete pelo Brasil
O mesmo raciocínio aparece em praças bem diferentes. Em Brasília, a incorporadora Emplavi comprou 164 mil m² de terreno ao lado do ParkShopping, também da Multiplan, com investimento inicial de R$ 500 milhões e potencial de gerar até R$ 5,5 bilhões em novos imóveis de alto padrão na região.
Em Maceió, a construtora Contemporânea ergue o The Home e o The Office ao lado do Parque Shopping, também da Multiplan, com elevador privativo que leva o morador direto ao mall e vista para o mar da praia de Cruz das Almas.
“Não queríamos apenas construir no entorno do shopping, mas escolher o terreno em um local que unisse o melhor do residencial, do empresarial e a comodidade de ter o shopping praticamente como uma extensão do projeto”, explica Gustavo Maranhão, da Contemporânea Construções.
Em São Paulo, a JHSF segue o mesmo caminho ao redor do Shopping Cidade Jardim, com nove edifícios residenciais de altíssimo padrão integrados ao mall e ao Cidade Jardim Corporate Center, somando 72 mil m² de terreno. No Rio de Janeiro, a própria Multiplan já aplicava a fórmula há mais tempo na Barra da Tijuca, onde o Centro Empresarial BarraShopping reúne 11 prédios comerciais e 173 mil m² de área construída ligados ao BarraShopping por uma passarela de 200 metros. Em Recife, o Grupo JCPM segue lógica parecida com o JCPM Trade Center, complexo empresarial erguido junto ao Shopping Center Recife.
Em João Pessoa, o Manaíra Shopping entra na mesma conta
A capital paraibana já sente esse movimento de perto. O Manaíra Shopping, controlado pelo empresário Roberto Santiago desde a fundação, em 1989, está em obras da oitava expansão de sua história, com conclusão prevista para 2027. O projeto soma seis novos pavimentos: dois deles vão virar mais 15.500 m² de área bruta locável em lojas, e outros quatro formam um complexo empresarial inteiro, com 17.300 m² de área bruta locável em salas comerciais. A expansão ainda inclui nova fachada com iluminação natural e um jardim de mais de 1.500 m² na cobertura.
A chegada de tanta área corporativa nova tende a esquentar o mercado imobiliário do entorno do shopping, já um dos mais valorizados de João Pessoa, com potencial de puxar investimentos em hotelaria, gastronomia, serviços e moradia voltada a quem passa a trabalhar ou circular na região. É a mesma lógica que já rendeu bairros inteiros de luxo em Porto Alegre e Brasília, só que, na Paraíba, ainda em estágio inicial, dentro dos limites de um único shopping em expansão.
Para o investidor que acompanha o setor, a movimentação nacional serve de régua: onde um shopping consolidado decide crescer, cresce junto um mercado imobiliário de apoio, seja em salas comerciais para locação, seja em moradia de alto padrão. Fica o alerta para quem avalia entrar nesse tipo de negócio na Paraíba, acompanhar de perto a absorção desses imóveis próximos dos shoppings de João Pessoa, o primeiro teste local de uma tese que, em outras capitais, já se provou capaz de valorizar terrenos e mudar o perfil de bairros inteiros.