Durante muitos anos, o Centro de Goiânia carregou a imagem de uma região marcada pelo esvaziamento urbano, imóveis fechados, insegurança e perda gradual de moradores. Agora, esse cenário começa a mudar. O coração histórico da Capital goiana vive um novo ciclo de transformação urbana que já impacta diretamente o mercado imobiliário, o comércio e a circulação de pessoas.
Os números confirmam essa mudança. Dados do Índice FipeZAP mostram que o Setor Central registrou valorização imobiliária de 15,5% nos últimos 12 meses, desempenho muito acima da média de Goiânia, que ficou em 2,87% no mesmo período. O resultado coloca a região como a área mais valorizada da cidade em 2026 e evidencia uma retomada estrutural impulsionada por revitalização urbana, novos empreendimentos e políticas públicas voltadas à reocupação do Centro.
A valorização acompanha uma mudança de comportamento urbano observada em grandes cidades brasileiras. Cada vez mais, moradores e investidores voltam os olhos para regiões centrais que oferecem mobilidade, acesso facilitado a serviços, proximidade com áreas comerciais e maior integração cultural.
Obras públicas e revitalização
Grande parte dessa retomada está ligada ao avanço de projetos públicos de revitalização urbana. Entre eles, o Programa Centraliza aparece como uma das principais apostas da Prefeitura de Goiânia para recuperar o protagonismo da região central.
O programa reúne ações voltadas à requalificação urbanística, social, cultural e econômica do Centro, com foco em atrair moradores, empresas e investimentos. Entre as medidas previstas estão incentivos fiscais para imóveis residenciais e comerciais, recuperação de espaços históricos, melhorias em calçadas, iluminação pública, paisagismo, acessibilidade e incentivo à ocupação cultural.
Nos últimos meses, algumas obras passaram a simbolizar essa transformação. A revitalização da Praça Botafogo, por exemplo, entregou novo calçamento, iluminação moderna, paisagismo e áreas de convivência. Já a Rua do Lazer ganhou novo impulso com ocupações culturais, gastronomia, feiras e apresentações artísticas, ampliando a movimentação noturna e de fim de semana.
Outra frente importante envolve a preservação do patrimônio Art Déco, uma das principais marcas arquitetônicas de Goiânia. O Centro da Capital possui um dos maiores conjuntos Art Déco do mundo, e projetos recentes buscam recuperar fachadas históricas, restaurar edifícios e valorizar a identidade visual da região.
Além disso, o Governo de Goiás também passou a investir na presença institucional no Centro, com estruturas administrativas próximas à Praça Cívica e à Avenida Anhanguera, fortalecendo o fluxo diário de pessoas.
Mercado imobiliário volta os olhos para o Centro
O novo cenário urbano rapidamente despertou o interesse do mercado imobiliário. Construtoras voltaram a investir na região com empreendimentos modernos, apartamentos compactos e projetos voltados principalmente para jovens profissionais, estudantes e investidores.
Prédios antigos que antes estavam vazios começam a passar por processos de retrofit, modelo que moderniza construções antigas preservando características históricas. A estratégia ajuda a recuperar imóveis abandonados e cria novas possibilidades de moradia em áreas já consolidadas da cidade.
O preço médio do metro quadrado em Goiânia chegou a R$ 8.166 em março de 2026, segundo levantamento da Fipe. Em algumas áreas do Centro, o valor já ultrapassa R$ 10 mil, impulsionado pela crescente procura e pelo novo perfil de ocupação urbana.
Empreendimentos lançados durante a pandemia, em 2020, com preços próximos de R$ 5 mil por metro quadrado, atualmente são comercializados acima de R$ 8.500. Em unidades decoradas e mais valorizadas, os preços já alcançam R$ 10.500 por metro quadrado, representando valorização próxima de 70% em poucos anos.
O movimento também reflete a busca por praticidade e qualidade de vida. Morar no Centro reduz deslocamentos, facilita acesso a transporte público, universidades, comércio, hospitais e serviços essenciais.
Especialistas defendem revitalização com inclusão social
Apesar do crescimento imobiliário e da valorização acelerada, especialistas alertam que a revitalização do Centro precisa ocorrer de forma equilibrada e inclusiva. O urbanista Fred Le Blue defende que a recuperação da região deve envolver moradores, trabalhadores, comerciantes e movimentos culturais, evitando que o processo fique concentrado apenas em interesses econômicos.
Segundo ele, existe o risco de elitização da área central, cenário em que a valorização excessiva dos imóveis pode expulsar moradores tradicionais e descaracterizar a identidade popular da região.
A professora de arquitetura Maria Ester de Souza também critica projetos focados apenas em áreas mais visíveis do Centro, sem olhar para a diversidade social e urbana existente em outros pontos da região.
Já o professor de cinema da Universidade Federal de Goiás (UFG), Lisandro Nogueira, afirma que Goiânia precisa construir uma política urbana permanente para o Centro, semelhante ao modelo adotado em cidades como Curitiba, onde a reocupação ocorreu de forma planejada, sustentável e integrada à cultura local.
Para especialistas, a revitalização só será consolidada se houver vida urbana contínua na região, com moradores, atividades culturais, segurança, comércio ativo e espaços públicos acessíveis.
Centro tenta recuperar protagonismo histórico
A retomada do Centro de Goiânia também passa pela reconexão da cidade com sua própria história. Durante décadas, a região foi símbolo do crescimento da Capital e concentrou a vida política, econômica e cultural. Com o avanço da expansão urbana para outras regiões, o Centro perdeu força e enfrentou esvaziamento progressivo.
Agora, o cenário aponta para uma tentativa de reconstrução dessa identidade. Eventos promovidos por entidades do mercado imobiliário, urbanistas e gestores públicos passaram a discutir soluções para devolver protagonismo ao coração da cidade.
A Semana Ademi, realizada neste mês de maio pela Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás, reuniu arquitetos, especialistas, empresários e representantes do poder público para debater projetos de requalificação urbana e novas formas de ocupação do Centro. A proposta foi aproximar a população das decisões sobre o futuro da região e estimular um modelo de revitalização sustentável.