Nos próximos 10 anos, a capital paulista precisará gerar cerca de 700 mil novas unidades habitacionais, na estimativa do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP). A demanda é resultado da somatória de diferentes, fatores do crescimento demográfico à necessidade de reduzir um déficit de imóveis na cidade – apesar de ter registrado um aumento expressivo de lançamentos anuais, que passaram de 19,4 mil em 2016 para 139 mil em 2025.
A dificuldade representa um desafio, mas também a oportunidade de transformar a vida dos moradores e dos empreendedores da maior metrópole do país. E o processo atual de resgate do centro, com base em incentivos urbanísticos, requalificação dos espaços públicos e investimentos em moradias, exerce um papel de peso neste momento, visto que permitiria reposicionar a ocupação para uma região que já oferece infraestrutura e empregos.
Este foi o cenário traçado por representantes do poder público, do mercado imobiliário e profissionais do setor durante o 1º Fórum de Arquitetura e Urbanismo. Realizado na manhã de 5 de agosto, o evento promoveu um debate qualificado sobre os rumos do desenvolvimento urbano da capital paulista. Três painéis levaram 10 lideranças ao palco para debater mobilidade e infraestrutura urbana, a revitalização de áreas centrais e a transformação em curso em Paraisópolis.
“Nenhuma cidade se constrói sozinha. O desenvolvimento urbano é resultado da capacidade de construir em conjunto. Esse fórum é um espaço qualificado para refletir sobre os desafios do desenvolvimento de São Paulo e, sobretudo, para formular decisões com base em um debate técnico, sério e plural”, disse, na abertura, Jorge Cury Neto, presidente do Secovi-SP.
Mobilidade integrada à moradia
O presidente executivo do Secovi-SP, Ely Wertheim, reforçou: “Na última década, mais de um milhão de pessoas na cidade de São Paulo foram beneficiadas pela construção de imóveis novos via programa Minha Casa Minha Vida. Há espaço e demanda para produzir mais”.
“Trabalhamos para que os moradores tenham não apenas habitação, mas também infraestrutura e mobilidade, de acordo com as diferentes demandas de cada região”, declarou, no painel de abertura, Maria Teresa Diniz, diretora de projetos e programas da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).
“Não basta fazer a transformação urbana dentro do lote, é importante aproveitar a oportunidade para transformar o entorno. Para isso, diferentes secretarias e órgãos precisam atuar de forma integrada."
A arquiteta e urbanista Elisabete França, secretária municipal de urbanismo e licenciamento, citou um exemplo de solução viária que apoia os moradores de bairros mais afastados do centro: o Aquático-SP, o primeiro sistema público de transporte hidroviário de São Paulo, que opera na Represa Billing, na Zona Sul, ligando o terminal Cantinho do Céu ao Parque Mar Paulista Bruno Covas em cerca de 17 minutos. De ônibus, o mesmo trajeto demora mais de uma hora.
“Na medida em que você qualifica a estrutura e estende a mobilidade, você traz mais qualidade de vida para as famílias e valoriza o entorno onde elas vivem. O plano hidroviário pode ser expandido para os nossos principais rios, o Tietê e o Pinheiros."
A proposta, em análise da prefeitura, de instaurar um teleférico entre a estação Brasilândia do Metrô até o CEU Paz, em uma região de relevo desafiador na Zona Norte, foi detalhada pela vereadora Sandra Santana. “A cidade tem territórios que cresceram de forma desordenada e em locais que o poder público tem dificuldade para acessar. É muito difícil levar uma linha de ônibus até o CEU Paz. Daí a proposta de instaurar o teleférico, nos moldes da iniciativa já realizada em Medelín, na Colômbia”, argumentou ela, que é advogada e pós-graduada em urbanismo social.
Nesse contexto, as parcerias são estratégicas, lembrou Claudio Bernardes, vice-presidente de Urbanismo do Secovi-SP. “As cidades inovadoras não conseguem tirar grandes projetos do papel sem parcerias entre poder público e iniciativa privada."
Para ele, atender à demanda habitacional, com qualidade no atendimento à população, passa pela reapropriação de territórios mal aproveitados. “Não há recursos suficientes para implementar, nas áreas periféricas, toda a infraestrutura que já existe nas áreas centrais. Mas é possível atrair mais moradores para o centro."
Obras no centro
Em sua participação no evento, Elisabete França citou como solução promissora de mobilidade o Veículo Leve Elétrico (VLE), um projeto que busca reorganizar a mobilidade do centro e teria capacidade para atender mais de 130 mil pessoas por dia. A iniciativa também foi mencionada ao longo do segundo painel da programação.
Guilherme Afif Domingos, administrador e empresário, secretário extraordinário de projetos estratégicos do estado de São Paulo, participou do debate com o engenheiro civil Marcos Monteiro, secretário municipal de infraestrutura urbana e obras da prefeitura de São Paulo, e Fabrício Cobra, secretário municipal das subprefeituras (SMSUB).
“O governo estadual está se deslocando para o centro, o que vai levar 22 mil funcionários a trabalhar na região. Além disso, a segurança melhorou. Há um grande choque de reurbanização acontecendo na região, que conta com o maior equipamento cultural concentrado da cidade”, lembrou Guilherme.
A região, de fato, vem recebendo uma série de investimentos em infraestrutura. Na República, as mudanças envolvem a reforma das calçadas, a instalação de novo mobiliário urbano, nova sinalização turística, nova iluminação funcional e cênica de edifícios históricos, reestruturação da infraestrutura subterrânea de drenagem e implementação de valas técnicas para ordenar as redes de telecomunicações. O investimento é de R$ 36,6 milhões, com impacto sobre 12 ruas e 37 mil m² de área, com entrega prevista para junho de 2027.
No triângulo histórico, o investimento é de R$ 89,6 milhões, em 23 ruas, que cobrem 63,3 mil m² até dezembro de 2026. Outros R$ 75,5 milhões serão aplicados ao Viaduto do Chá, à Praça do Patriarca e ao Theatro Municipal, com obras em fase final de licitação e prazo de 24 meses para execução.
Valor equivalente foi utilizado para a recuperação e ao reforço estrutural do Viaduto Santa Ifigênia, entregue em outubro de 2024. “O caminho está sendo traçado”, declarou Marcos. “Temos como meta levar 220 mil novas pessoas a morar no centro”, informou Fabrício.
Urbanização de Paraisópolis
Fabio Silva, CEO da Rede Muda Mundo, reconhecida pela ONU como uma das principais plataformas de voluntariado do mundo, detalhou a implementação da Casa Zero 11, na Avenida Rio Branco, na região central da capital.
“Começamos em Recife. Agora São Paulo é nossa vitrine para o Brasil. Propomos um ecossistema que conecta poder público e iniciativa social ao qualificar pessoas para empreender e acessar o mercado de trabalho."
Quando os esforços se somam, em habitação, mobilidade, infraestrutura e segurança, áreas inteiras da cidade se fortalecem. O case de Paraisópolis, que exemplifica essa proposta, foi detalhado no terceiro painel pelo arquiteto e urbanista Pedro Fernandes, mestre em gestão e políticas públicas e presidente da SP Urbanismo, a região desafia os modelos tradicionais de planejamento urbano, e ainda assim experimenta avanços, iniciados com um processo de urbanização realizado há 15 anos.
“A transformação passa também por gerar mais oportunidades de empregos qualificados. Nesse sentido, é estratégico o investimento na Praça da Paz, que representa um espaço de recuperação social, ambiental e econômica”, disse ele, fazendo referência ao projeto de implementar um novo equipamento urbano de aproximadamente 6 mil m², no encontro da Rua Herbert Spencer com o Córrego do Antonico, que será requalificado.
1º Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR SP
O evento foi apresentado pela Prefeitura de São Paulo e realizado por CASACOR, CBN e Editora Globo, com apoio institucional da São Paulo Negócios e chancela do governo de São Paulo como estado anfitrião.
O Parque da Água Branca, onde o fórum foi realizado, recebe também a 39ª edição da CASACOR São Paulo, realizada até 9 de agosto, com funcionamento de terça a domingo, incluindo feriados, sempre das 11h às 22h. A entrada no Parque da Água Branca (Rua Dona Ana Pimentel, 37) é permitida até às 20h, enquanto a bilheteria presencial e o acesso à mostra funcionam até às 20h15.