O novo luxo imobiliário não está mais no que se vê

em Monitor Mercantil / Opinião, 7/agosto

O mercado imobiliário deve se questionar até quando ele vai vender um produto para quem está comprando significado Por Andressa Machado.

Recentemente, fiz uma imersão em São Paulo, visitando alguns dos empreendimentos mais relevantes do mercado imobiliário de alto padrão, e saí de lá com uma constatação muito clara: o luxo imobiliário está mudando de eixo. Durante décadas, o mercado construiu valor com base em atributos tangíveis: metragem, fachada, acabamento e endereço.

Tudo isso continua importante, mas já não sustenta sozinho a percepção de valor. O cliente de alto padrão mudou e, hoje, busca algo mais profundo: contexto, narrativa, curadoria e experiência. É justamente por isso que os projetos mais desejados do mercado já não começam na planta, mas na marca, na visão e na experiência que o empreendimento representa.

Esse movimento fica evidente quando olhamos para o crescimento das branded residences no mundo. Segundo o relatório global da Savills (2025), esse segmento cresce mais de 12% ao ano, sendo que empreendimentos com marca chegam a atingir prêmios de até 30% a 35% sobre projetos comparáveis sem assinatura.

Mas o ponto mais interessante não está apenas no valor, e sim no papel que a marca exerce na percepção do cliente: ela funciona como um atalho de confiança, repertório e posicionamento. Isso ficou muito claro em alguns projetos que visitei em São Paulo.

O Vista Cyrela by Armani/Casa, por exemplo, não se trata apenas de um edifício com assinatura. Existe ali uma estética muito clara: sofisticação silenciosa, proporções precisas, materiais nobres e uma leitura refinada de lifestyle. Quando a marca entra com consistência, ela não empresta apenas o nome; ela organiza a percepção de valor do cliente antes mesmo de ele olhar a planta.

Já no Capri by Dolce & Gabbana Casa, o caminho é outro, mas igualmente inteligente: a identidade da marca não aparece como um detalhe, mas estrutura todo o universo do projeto. Não se vende apenas arquitetura; vende-se imaginário, estilo e pertencimento. E talvez esse seja um dos maiores aprendizados para o nosso mercado: o cliente premium não compra apenas um imóvel bonito, ele compra o universo que aquele imóvel representa.

Outro movimento impossível de ignorar é a aproximação entre moradia e hospitalidade. No Faena São Paulo, essa lógica aparece de forma muito clara: o projeto conecta residência, hotel, arte, gastronomia, curadoria cultural e serviço, revelando uma transformação importante no conceito de luxo. Morar bem não se resume mais ao espaço físico. O conceito envolve serviço, experiência e fluidez; envolve viver dentro de um ecossistema.

Entretanto, existe um aspecto que é tão importante quanto marca e produto: a cultura comercial. Uma marca forte atrai, um bom produto encanta, mas nenhum dos dois se sustenta sem uma operação preparada para representar essa promessa. E é justamente aqui que muitos projetos perdem força.

O cliente de alto padrão percebe desalinhamento muito rápido. Ele percebe quando:

  • a marca promete profundidade e a equipe entrega superficialidade;
  • o discurso fala em exclusividade, mas a experiência comercial continua comum;
  • o projeto comunica sofisticação, mas o atendimento não acompanha.

No alto padrão, não basta apresentar atributos. Vender bem hoje é traduzir repertório, contexto, intenção e valor percebido.

Existe ainda uma camada que São Paulo evidencia com muita força: o valor imobiliário também nasce da capacidade de ressignificar cidade, patrimônio e cultura. Nesse sentido, o Rosewood São Paulo, dentro da Cidade Matarazzo, é uma verdadeira aula.

Um espaço em que o valor do projeto não está apenas no que foi construído, mas, principalmente, no que foi reinterpretado. Arquitetura, história, arte, paisagismo e hospitalidade se encontram para criar algo maior do que um empreendimento: uma verdadeira referência urbana. E referências constroem desejos de uma forma muito mais poderosa do que qualquer lista técnica de atributos.

Ao final dessa imersão, uma reflexão ficou muito clara: o futuro do alto padrão não será definido apenas por quem entrega bons produtos, mas por quem consegue construir:

  • marcas mais relevantes;
  • experiências mais completas;
  • times mais preparados;
  • narrativas mais consistentes.

O luxo contemporâneo não está apenas no que se vê, mas sim no que se percebe, no que se sente e no que se vive. Talvez, seja a grande provocação para o nosso mercado hoje: até quando vamos continuar tentando vender produto para um cliente que já está comprando significado?


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Andressa Machado é especialista em mercado imobiliário, fundadora da Sísmica e uma das principais estrategistas comerciais do país. Com 25 anos de experiência, construiu sua trajetória em empresas como Cyrela, Abyara e Brasil Brokers. À frente da profissionalização de equipes comerciais de incorporadoras em todo o Brasil, suas metodologias já impactaram mais de 7 mil corretores e 500 líderes, contribuindo para a geração de mais de R$ 1 bilhão em VGV