Num tempo em que o Rio de Janeiro ainda misturava ruas coloniais estreitas, trapiches improvisados, lampiões e uma cidade marcada pelo peso da herança portuguesa, um homem ousou imaginar algo que parecia quase futurista para o Brasil: ferrovias, bancos modernos, iluminação pública a gás, estaleiros, linhas de navegação e um porto capaz de conectar o país ao capitalismo internacional. Seu nome era Irineu Evangelista de Souza. O mundo o conheceria como Visconde (ou Barão, seu título anterior) de Mauá. Hoje transformado quase em personagem lendário da história brasileira, Mauá foi, na prática, um dos grandes arquitetos do Rio moderno — e também uma figura profundamente ligada ao velho Centro da cidade e à Associação Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida por Josier Vilar desde sua linda sede Art Déco na rua da Candelária.
A relação entre Mauá, o porto e a elite empresarial carioca aparece com força na tese da historiadora Nívea Silva Vieira, da Universidade Federal Fluminense, intitulada “A Associação Comercial do Rio de Janeiro e o Porto: definição e redefinição das políticas públicas para o porto do Rio de Janeiro”. O trabalho analisa a atuação da Associação Comercial entre o fim do Império e o início da República e mostra como comerciantes, banqueiros, armadores e empresários do Rio participaram diretamente da construção econômica e política da cidade e do país.
A própria autora define a trajetória da Associação Comercial como parte inseparável da formação do Estado brasileiro, afirmando que “refletir sobre sua história é repensar todo o conjunto social e estatal que compõe o país”. Não é exagero. Durante décadas, o coração econômico do Brasil bateu entre a Praça XV, a Rua Direita, a Rua do Ouvidor, os armazéns da zona portuária e os corredores comerciais do Centro Histórico. Muito antes de Brasília existir e muito antes da Avenida Paulista se tornar símbolo do poder financeiro brasileiro, era o velho Centro do Rio que concentrava decisões capazes de influenciar os rumos da economia nacional.
Na primeira metade do século XIX, o Rio era uma cidade fervilhante, ainda profundamente marcada pela lógica colonial, mas já atravessada pelas transformações do capitalismo internacional. O porto recebia navios vindos da Europa carregados de mercadorias, tecidos, móveis, vinhos, máquinas e artigos de luxo. Pelas ruas circulavam negociantes portugueses, investidores ingleses, empresários franceses, representantes de companhias marítimas, funcionários do Império, banqueiros, armadores e comerciantes brasileiros que enriqueciam rapidamente com a expansão do café e do comércio atlântico.
Era nesse ambiente que Mauá se destacava. A tese da UFF recorda que ele acumulava funções que hoje pareceriam impossíveis numa única pessoa: banqueiro, armador, empresário industrial, investidor em transporte urbano, acionista e diretor do Banco do Brasil, proprietário de empresas de navegação e figura central na antiga Sociedade dos Assinantes da Praça, entidade que daria origem à Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Mas talvez o mais fascinante em Mauá fosse sua capacidade de enxergar o futuro do Rio. Enquanto muitos viam apenas um país agrícola dependente da exportação de matérias-primas, ele imaginava uma cidade cosmopolita, integrada ao comércio internacional, conectada por ferrovias, abastecida por infraestrutura moderna e capaz de competir com grandes centros urbanos do Atlântico. Seu projeto de modernidade não se limitava aos negócios. Mauá compreendia que infraestrutura urbana era também poder político e econômico. Sem porto eficiente, não haveria comércio forte; sem transporte moderno, não haveria crescimento; sem integração logística, o Rio perderia protagonismo internacional.
A própria Associação Comercial se consolidava nesse período como uma poderosa articuladora dos interesses econômicos do Centro do Rio. A pesquisa mostra que a entidade reunia comerciantes, banqueiros, industriais, armadores e empresários ligados ao porto, funcionando quase como um grande centro informal de formulação econômica e política da capital do Império. A autora chega a definir a Associação Comercial como uma espécie de “partido dos negociantes”, organizado para transformar interesses econômicos em projetos capazes de influenciar diretamente o Estado brasileiro.
O velho Centro fervilhava de vida e negócios. Pela Praça XV passavam carregadores, investidores, representantes de companhias estrangeiras, políticos e empresários discutindo contratos, importações, seguros marítimos e obras de infraestrutura. A Rua do Ouvidor consolidava sua fama como corredor elegante da cidade. Os sobrados misturavam escritórios, cafés, residências e armazéns. O porto transformava o Rio numa das cidades mais importantes do Atlântico Sul. E a Associação Comercial refletia exatamente esse ambiente cosmopolita. Segundo a tese, sua diretoria reunia brasileiros, ingleses, portugueses, franceses, espanhóis, alemães e norte-americanos, evidenciando a dimensão internacional do comércio carioca naquele período.
Muito do que o Rio viveria décadas depois, especialmente durante as grandes reformas urbanas da virada do século XX, já aparecia de alguma forma nas ideias defendidas por Mauá e pelos grupos ligados à Associação Comercial. O sonho era transformar a capital do Império numa cidade moderna, vibrante, sofisticada e competitiva diante das grandes metrópoles internacionais. Havia, porém, enormes resistências. A cidade ainda carregava estruturas coloniais pesadas, a burocracia imperial frequentemente entrava em choque com empresários, interesses políticos divergiam e o próprio porto do Rio se tornaria, nas décadas seguintes, palco de disputas ferozes entre comerciantes, engenheiros, governo federal e grupos estrangeiros interessados em controlar o coração econômico da capital.
A tese de Nívea Silva Vieira mostra que a Associação Comercial atuou de forma permanente nas discussões sobre o porto e tentou influenciar diretamente as políticas públicas ligadas à infraestrutura da cidade. A autora conclui que a entidade teve “papel determinante no desenvolvimento do porto do Rio de Janeiro” e esteve em conflito constante com outras forças para fazer prevalecer sua visão sobre aquela indústria fundamental para o país.
Mais de um século depois, o Centro do Rio volta a viver um momento de forte revitalização e redescoberta. Novos moradores ocupam edifícios históricos restaurados, bares e restaurantes movimentam novamente as ruas da Praça XV, da Rua do Ouvidor e do entorno portuário, projetos de retrofit se multiplicam e a região reassume seu protagonismo cultural, turístico e empresarial. O coração histórico da cidade voltou a atrair investimentos, negócios, vida urbana e interesse dos cariocas, numa transformação que recoloca o Centro no radar do Rio contemporâneo.
Talvez por isso a figura do velho Visconde de Mauá pareça hoje tão atual. Seu grande sonho nunca foi apenas enriquecer. Era provar que o Rio de Janeiro podia ser uma cidade moderna, internacional, economicamente poderosa e profundamente conectada ao mundo. Entre a Praça XV, a Rua do Ouvidor, os antigos cais e os corredores históricos da cidade, o Rio reencontra agora justamente essa vocação: a de um Centro vibrante, pulsante e capaz de unir tradição, memória, negócios, cultura e futuro num mesmo território.